Sua admiração ainda é saudável?
Vivemos em uma época em que é extremamente fácil acompanhar a vida de outras pessoas Não precisamos de muito para saber o que nossos amigos comeram no almoço, onde um influenciador que admiramos passou o fim de semana ou qual roupa nosso artista favorito vestiu no aeroporto, por exemplo.
Para quem é ARMY, essa sensação é ainda mais intensa, com as lives inesperadas de madrugada, fotos no Weverse, documentários, bastidores, músicas que parecem cartas abertas, etc. Durante anos, o BTS construiu uma relação de enorme proximidade com os fãs, compartilham alegrias, inseguranças, conquistas e até períodos difíceis. É natural que nós nos sintamos próximos deles.
Mas existe uma pergunta que, como fã, preciso fazer: Apesar de tanto acesso, por que ainda existem pessoas que nunca parecem satisfeitas? Por que há quem invada hotéis, descubra voos, siga carros, exponha informações pessoais ou trate sete homens como se eles devessem existir exclusivamente para alimentar a necessidade emocional de milhares de desconhecidos? A resposta talvez seja incômoda, nem toda admiração continua sendo inspiração, às vezes ela se transforma em outra coisa.
Crescemos ouvindo que devemos ter exemplos, modelos que nos inspirem a estudar mais, trabalhar melhor, ser mais gentis ou perseverantes, e isso é saudável. O problema não é admirar alguém, e sim, quando você desaparece para que outra pessoa exista, quando tem mais conhecimento da rotina do artista favorito do que da própria, quando o humor depende de uma live, quando uma pausa nas redes sociais causa ansiedade, quando justifica qualquer comportamento porque "ele nunca erra" ou quando deixa de viver a própria história para assistir, diariamente, a história de outra pessoa.
Nesse ponto, talvez não esteja mais admirando, esteja se perdendo. Existe um conceito na psicologia chamado Celebrity Worship Syndrome (CWS) — Síndrome da Adoração à Celebridade. Pesquisadores a descrevem como um padrão de preocupação intensa e persistente com uma figura pública, que ultrapassa a admiração comum e passa a influenciar identidade, pensamentos e comportamento. Ela costuma nascer através das chamadas relações parassociais, que são relações unilaterais, onde você sabe tudo da outra pessoa mas ela sequer sabe que você existe, no entanto, você começa a interpretar aquela presença constante como intimidade. É bem curioso como a mente humana funciona.
Assistir alguém durante anos falando diante da câmera, sorrindo, chorando e dividindo medos e conquistas faz com que, aos poucos, pareça que você conhece profundamente aquela pessoa. Mas conhecer não significa ser conhecido. Os pesquisadores descrevem três níveis desse envolvimento: O primeiro é saudável, é quando acompanha entrevistas, ouve músicas, comenta teorias, assiste aos shows e se diverte com outros fãs.
O segundo envolve uma dependência emocional maior, o artista passa a ocupar espaço demais na autoestima, nas emoções e até nas decisões. E o terceiro é preocupante, é quando surgem perseguições, invasões de privacidade, gastos extremos, comportamentos de risco ou a crença de que existe uma relação especial única e romântica entre fã e artista. Infelizmente, existem notícias assim, muitas vezes, elas envolvem justamente artistas que sempre tratavam seus fãs com carinho.
Existe outro fenômeno interessante chamado Celebrity Masking Syndrome, que é quando a pessoa deixa de apenas admirar uma celebridade e começa a querer ser aquela celebridade, copia roupas, expressões, gostos, personalidade, modo de falar, opiniões, etc.. Como se sua própria identidade fosse insuficiente. O problema não está em mudar o corte de cabelo inspirado em alguém, está em esquecer quem você era antes daquele corte.
O BTS sempre falou muito sobre identidade, talvez por isso esse tema faça tanto sentido dentro do fandom, em Answer: Love Myself, eles repetem: "You've shown me I have reasons I should love myself." Essa música nunca foi sobre substituir quem você é, é justamente o contrário, ela convida a olhar para dentro, e voltar para você mesmo. RM costuma dizer que ninguém consegue amar verdadeiramente outra pessoa sem antes aprender a conhecer a si mesmo, em diferentes discursos e entrevistas, ele reforçou que cada indivíduo possui sua própria história e seu próprio caminho.
O BTS nunca pediu plágios e sempre incentivou autenticidade. Há uma frase de Yoongi que diz: "Não use sua vida para provar algo para os outros. Viva por você." e talvez seja exatamente isso. Ser fã não deve significar abandonar nossa própria narrativa. A psicóloga Juliana Capel resumiu isso de maneira simples: "Você pode amar um artista, mas não pode se perder de si no processo." Essa talvez seja uma das definições mais bonitas de um fandom saudável, porque amar não significa possuir, nem controlar, exigir acesso ou transformar a outra pessoa na única fonte de felicidade.
Existe uma diferença importante entre ser fã e viver uma relação parassocial. Ser fã é admirar, celebrar um álbum novo, chorar num show, decorar letras, rir das piadas internas e sentir orgulho de acompanhar uma trajetória. Uma relação parassocial problemática faz com que você sinta a necessidade constante de saber onde aquela pessoa está, sente-se incomodado quando ela desaparece por alguns dias, acredita que seria amigo íntimo dela se tivesse oportunidade, fantasia encontros, tem ciúmes de relacionamentos amorosos, negligência amizades reais e passa horas monitorando redes sociais. Sua rotina começa a girar em torno de alguém que sequer conhece seu nome.
No entanto, um relacionamento parassocial nem sempre é ruim, ele pode reduzir a solidão, trazer conforto, inspirar mudanças positivas, motivar alguém a estudar outro idioma, começar uma terapia, voltar a sonhar. Muitos ARMYs aprenderam coreano, viajaram, fizeram amizades e encontraram forças para enfrentar períodos difíceis graças ao BTS. O problema aparece quando essa inspiração deixa de apontar uma direção e passa a ocupar o destino, as pessoas que admiramos são placas na estrada que apontam caminhos, mas não se pode morar em placas, não é mesmo?
O próprio BTS vem reforçando limites cada vez maiores, mais segurança, menos exposição, mais privacidade e isso é compreensível. Existem artistas que sofreram perseguições, invasões de casas, ameaças e atentados. Quando um aeroporto vira um caos ou um hotel precisa reforçar sua segurança, todos perdem, o carinho deixa de ser acolhedor e passa a assustar.
Talvez a idolatria moderna nem precise de altares, só de prioridade, pois ela é aquilo que ocupa pensamentos, tempo, identidade, emoções e sempre que alguém ocupa o espaço que deveria pertencer aos princípios, a liberdade diminui. Às vezes é bom fazer um exercício simples. E se amanhã o BTS desaparecesse completamente da internet? Sem lives. Sem Weverse. Sem músicas novas. Sem fotos. Quem você continuaria sendo?
Essa pergunta não mede o tamanho do seu amor por eles e sim o tamanho da sua relação consigo. Porque, se sua identidade desaparece junto com a deles, talvez você tenha entregue mais do que admiração, entregou partes de você. Continue sendo ARMY, vibre com cada comeback, seja emocionada quando eles subirem ao palco novamente e continue encontrando conforto em suas músicas. Mas espero que não esqueça aquilo que eles mesmos tentaram ensinar durante tantos anos, pois a mensagem nunca foi "vivam por nós”, foi "encontrem vocês mesmos".
No fim, talvez seja essa a forma mais bonita de amar um artista, permitir que ele inspire a construção da sua própria história e não que ocupe o lugar dela. Porque o mundo já possui um Kim Namjoon, um Kim Seokjin, um Min Yoongi, um Jung Hoseok, um Park Jimin, um Kim Taehyung e um Jeon Jungkook. Mas existe apenas uma pessoa capaz de viver a sua vida, você.
Se você sente que pode ter um relacionamento parassocial não saudável em sua vida, talvez seja hora de rompê-lo. Reduza seu tempo nas redes sociais, reconecte-se com amigos e familiares e conheça suas necessidades emocionais. Conversar com seu profissional de saúde pode ajudar e ele pode recomendar recursos que possam ajudá-lo a satisfazer suas necessidades emocionais de maneiras mais saudáveis.
FONTES/REFERÊNCIAS:
https://www.uclahealth.org/news/article/how-can-parasocial-relationships-affect-your-mental-health
Horton, D., & Richard Wohl, R. (1956). Mass Communication and Para-Social Interaction: Observations on Intimacy at a Distance. Psychiatry, 19(3), 215–229. https://doi.org/10.1080/00332747.1956.11023049




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