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Arirang, migração e memória: a jornada dos primeiros coreanos rumo à América

  • Ketlen Vieira
  • 27 de abr.
  • 3 min de leitura

Atualizado: 3 de mai.

Nessa nova fase dos meninos à prova de bala, existe um significado mais amplo e significativo por trás de cada letra, cada traço ou símbolo. Não são apenas 14 faixas que compõem o mais novo álbum do BTS, mas sim um pedaço da cultura coreana, resquícios de uma história até então apagada, é a forma como os membros trouxeram para celebrar ao mundo inteiro a identidade deles como coreanos.


Arirang: o Hino da Alma e da Resistência:


Não existe uma palavra para traduzir “Arirang”, e além disso, não é apenas uma música, por trás desta palavra existe um significado muito maior. É um símbolo da identidade coreana, e muitas vezes chamada até como “hino não oficial”. Funciona como um verdadeiro símbolo da memória coletiva, com origens antigas e múltiplas variações regionais, “Arirang” carrega sentimentos de saudade, separação e resistência, temas profundamente ligados às experiências de migração. 


Migração: O Sete Primeiros Coreanos na América:


Ao longo da história, especialmente entre o final do século XIX e o início do século XX, muitos coreanos deixaram sua terra natal em  busca de sobrevivência e oportunidades, levando consigo não apenas objetos, mas também sua cultura, suas histórias e suas músicas.  


A migração coreana rumo às Américas teve momentos marcantes, como a chegada de trabalhadores ao Havaí em 1903, contratados para trabalhar em plantações de cana-de-açúcar. Posteriormente, outros grupos se estabeleceram em países como o Brasil e os Estados Unidos, formando comunidades que buscavam preservar suas tradições enquanto se adaptavam as novas realidades. Nessa nova realidade, “Arirang” tornou-se um elo emocional com a terra de origem, uma forma de manter viva a identidade cultural mesmo à distância. A canção expressava a dor da separação, mas também a esperança de reencontro e continuidade.


Tudo começou no ano de 1896, quando sete estudantes coreanos em Washington, D.C., gravaram Arirang pela primeira vez no exterior em um cilindro de cera, registrado pela etnóloga Alice Cunningham Fletcher como "Love song: Ar-ra-rang". Esse evento liga o conceito de Arirang diretamente à jornada de memória e saudade na América. 


A memória, nesse cenário, não é apenas uma lembrança individual, mas uma construção coletiva. Ela se manifesta em práticas culturais, narrativas familiares e expressões artísticas que atravessam gerações. A música, em especial, desempenha um papel fundamental nesse processo, pois conecta passado e presente de maneira sensível e acessível.


BTS: Resgatando Raízes:


Um dos maiores grupos do K-pop teve seu comeback em março de 2026, e com esse retorno que marca algo inesquecível no universo musical, também marca a forma como um grupo trouxe músicas que celebram e valorizam sua identidade, ao mesmo tempo que retorna para as suas origens.


Assim como em 1896, tudo começou com sete jovens coreanos, na atualidade, também começou com sete coreanos. Embora inseridos em um contexto contemporâneo e globalizado, os integrantes frequentemente abordam temas como identidade, pertencimento, juventude e memória em suas músicas. Em diversas ocasiões, o BTS também resgatou elementos da cultura tradicional coreana, seja em performances, figurinos ou referências simbólicas, aproximando o público internacional de aspectos históricos e culturais da Coreia.


Assim como “Arirang” ecoava a experiência dos primeiros migrantes, o BTS atua como um mediador cultural moderno, levando narrativas coreanas para o mundo. A diferença está no meio: enquanto a canção tradicional viajava com os corpos migrantes, o BTS se desloca por meio da mídia global, alcançando milhões de pessoas instantaneamente. Ainda assim, ambos compartilham a função de preservar e transmitir memórias coletivas.


Portanto, ao relacionar “Arirang”, a migração coreana e o BTS, percebe-se uma continuidade histórica: a cultura como fio condutor da identidade, capaz de atravessar fronteiras, resistir ao tempo e se reinventar. Se antes a música era um consolo diante da distância, hoje ela também é uma ponte que conecta culturas, reafirmando que memória e identidade não se perdem, apenas se transformam.


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