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“BTS não combina com hip-hop?” — ou: quando a memória seletiva bate mais forte que o 808

  • Luiza Barbosa
  • 5 de abr.
  • 3 min de leitura

Tem uma coisa curiosa acontecendo toda vez que o BTS retorna com algo mais puxado pro rap ou pro hip-hop: sempre aparece alguém surpreso.


“Eles combinam com isso?”

“Não parece o BTS que eu conheço…”


E talvez o ponto esteja exatamente aí.


Qual BTS você conheceu?


Porque dizer que o BTS não combina com hip-hop não é só uma opinião, é um recorte muito específico (e limitado) da trajetória de um grupo que nasceu, cresceu e se estruturou a partir desse gênero.


Lá em 2013, quando debutaram com No More Dream, o BTS não estava flertando com o hip-hop. Eles estavam dentro dele. A estética, a construção sonora, a crítica social, a presença da rapline, tudo ali apontava para uma base muito clara. O BTS começou como um grupo fortemente ancorado no hip-hop, especialmente dentro da cena coreana, onde nomes como Epik High e artistas do underground já pavimentavam esse caminho.


E mais do que isso: o próprio grupo foi originalmente pensado dentro dessa estrutura. A formação inicial girava em torno de RM, com uma proposta diretamente ligada ao hip-hop, à escrita, à performance e à construção de narrativa dentro desse gênero. Ou seja, não era apenas uma influência, era o ponto de partida.


E quando a gente fala dessa base, não é conceitual, é prática.


Antes mesmo do debut, RM já estava inserido na cena underground, participando de batalhas de rap, rodas de rima e construindo sua identidade como rapper. E foi justamente essa trajetória que trouxe também resistência: na época, a transição para o universo idol era vista com desconfiança dentro do hip-hop. Ele foi criticado, questionado, colocado em dúvida. E não ignorou isso, transformou em discurso. Na sua primeira mixtape, RM, ele expõe esse conflito, essa cobrança e essa necessidade de provar que podia existir nos dois espaços.


E ele provou.


Suga também vem diretamente desse cenário. Antes do BTS, já atuava como rapper e produtor no underground, escrevendo, compondo e construindo sua musicalidade dentro do hip-hop. Sua relação com o gênero sempre foi estrutural, não estética.


E J-Hope, mesmo vindo da dança, também nunca esteve distante disso. Integrante do grupo de street dance Neuron, ele se formou dentro da cultura de rua, que é, por essência, uma das bases do hip-hop. Porque o hip-hop nunca foi só música: é movimento, é corpo, é expressão. É dança, é rua, é vivência.


Ou seja, quando a gente fala de rapline, não está falando de adaptação.

Está falando de origem.


E isso nunca deixou de existir.


O que aconteceu, e que talvez confunda quem chegou depois, é que o BTS expandiu. Muito.


Ao longo dos anos, o grupo transitou por pop, R&B, EDM, rock, funk, disco… músicas como Dynamite e Butter apresentaram o BTS para um público global sob uma estética completamente diferente daquela de início de carreira. E isso não é contradição. É construção.


E também é escolha.


Porque, ao mesmo tempo em que o grupo reconhece suas raízes, inclusive culturais, enquanto artistas coreanos inseridos em uma indústria global, eles também entendem que a música é troca. O ocidente também produz referências, sonoridades e caminhos que podem ser incorporados. E fazer isso não é apagar origem, é se reinventar.


São sete artistas com identidades distintas, que exploram diferentes linguagens, tanto em grupo quanto em seus trabalhos solo. Mas diversidade não apaga origem, pelo contrário: fortalece.


E talvez seja exatamente por isso que, mesmo em períodos de pausa, como durante o hiato e o serviço militar, o BTS continuou alcançando feitos impressionantes. Sem agenda ativa de shows ou promoções tradicionais, o grupo seguiu batendo metas, ultrapassando números e se mantendo relevante em uma indústria que exige constância. Isso não acontece por acaso.


Acontece porque existe base.

Existe construção.

Existe história.


E é aí que entra o incômodo (ou estranhamento) de alguns: quando o BTS retorna com elementos mais evidentes do hip-hop em “Arirang”, com destaque forte da rapline, isso não é uma mudança inesperada.


É um retorno consciente.

É continuidade.


Principalmente quando entendemos que o hip-hop, para o BTS, nunca foi apenas sonoridade, foi discurso. Foi ferramenta de expressão, de crítica, de identidade.


Dizer que eles “não combinam” com isso ignora não só a história do grupo, mas também o fato de que membros como RM, Suga e J-Hope vieram diretamente dessa base, com trajetórias sólidas dentro do rap antes mesmo do debut.


Então não, o BTS não “tentou” fazer hip-hop agora.

Eles só lembraram, pra quem esqueceu, de onde vieram.


E talvez o mais interessante nisso tudo seja perceber que o BTS nunca foi uma coisa só. Eles são movimento. São fase. São conceito.


Mas, acima de tudo, são artistas que sabem exatamente quais raízes sustentam tudo isso, inclusive o grave do 808 que, aparentemente, ainda surpreende algumas pessoas.


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