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O Elo Invisível que Poucos Comentam sobre ARIRANG e Hope On The Street Vol. 1

Júlia Pimentel
13 de ago.
4 min de leitura

Quem poderia imaginar que, em uma tarde de domingo, sete artistas sul-coreanos levariam o K-pop ao primeiro show do intervalo da final de uma Copa do Mundo? E quem ousaria imaginar que, pouco mais de quatro meses antes desse momento, eles lançariam um álbum que muitos já consideram um dos mais importantes da década? Especulações nunca faltaram, mas existe um detalhe que poucas pessoas percebem: essa história começou a ser escrita lá em 2022.


Com a pausa nas atividades coletivas, os membros do BTS se permitiram explorar novos caminhos artísticos e suas escolhas acrescentaram novas camadas às identidades que construíram ao longo de quase uma década de carreira. Hoje, vamos analisar como um desses caminhos levou J-Hope a criar Hope On The Street Vol. 1 e entender por que esse projeto estabelece uma conexão tão profunda com ARIRANG, o quinto álbum de estúdio do BTS. Antes, no entanto, é importante voltar a junho de 2022. Quando o grupo anunciou que diminuiria suas atividades para que cada integrante pudesse seguir projetos individuais, uma parte do público interpretou aquela decisão como uma pausa. Mas hoje, olhando em retrospecto, fica evidente que aquele momento marcou, na verdade, o início de uma das fases mais importantes de sua trajetória artística. Isso porque, pela primeira vez desde o debut, cada integrante teve espaço para construir uma narrativa própria, experimentar novas sonoridades e responder, à sua maneira, uma pergunta bem simples: quem sou eu quando não estou falando em nome do BTS?


Como boa parte do fandom já sabe, embora cada projeto possua uma identidade própria, todos compartilham um mesmo ponto de partida que é a busca pelo autoconhecimento. Assim, cada integrante voltou o olhar para dentro de si e procurou compreender quem era para além da identidade coletiva construída pelo grupo e as respostas encontradas acabaram sendo refletidas em cada álbum, conceito e novas escolhas artísticas. Foi justamente nesse contexto que nasceu Hope On The Street Vol. 1. Ao invés de revisitar os desafios da própria trajetória com ressentimento, Hoseok decidiu voltar à origem de tudo: a dança. Antes de sonhar em ser rapper, compositor ou performer, ele era apenas um jovem apaixonado pela dança de rua e, como é possível perceber, essa paixão atravessa todas as seis faixas do álbum. Do assobio que abre "on the street", ao sussurro de Huh Yunjin em "i don't know", passando pela declaração sincera presente em "NEURON", percebemos uma mudança importante na narrativa.


Além disso, a arquitetura sonora ganha novas camadas e o foco deixa de estar apenas no artista e passa a incluir pessoas, lugares e experiências que ajudaram a moldá-lo. A rua, nesse contexto, deixa de ser apenas um espaço físico e se transforma em um lugar simbólico, onde histórias circulam, memórias permanecem vivas e conhecimentos são transmitidos de geração em geração. É justamente nessa ideia de memória coletiva que mora o elo invisível entre HOTS Vol. 1 e ARIRANG.


Enquanto o primeiro revisita suas raízes por meio da dança de rua e da cultura hip-hop, o segundo amplia esse movimento. Em vez de olhar apenas para a origem de um indivíduo, ARIRANG se volta para uma memória coletiva, explorando temas relacionados à tradição, pertencimento e identidade cultural como formas de compreender quem aquelas sete pessoas são hoje. Por isso, acredito que Hope On The Street Vol. 1 nunca foi um álbum solo lançado ao acaso.


Afinal, olhando para trás, fica difícil enxergá-lo como um projeto isolado. De certa forma, ele parece muito mais o primeiro capítulo de uma conversa que o BTS só concluiria em ARIRANG, uma vez que, antes de falarem sobre a memória do seu povo, era necessário reconhecer as histórias individuais que sustentam esse coletivo. Por isso, diferente do que uma boa parte do público considera, a chamada "era solo" não deveria ser associada a quebra ou ruptura de algo, mas sim ligação; conexão. Uma conexão que os permitiu - através de cada álbum lançado nesse período - acrescentar novas peças ao quebra-cabeça e expandir o repertório musical, emocional e estético do grupo. Para no final, quando todas essas peças finalmente se encontrarem, surgir algo tão brilhante, complexo, maduro e consistente como ARIRANG.


Portanto, se pararmos para analisar com um pouco mais de afinco, vamos perceber como Hope On The Street Vol. 1 já anunciava o caminho que ARIRANG percorreria. Veja bem, ambos falam sobre voltar para casa. Porém, o que os diferencia é a forma como constroem essas narrativas. Enquanto um começa pelos passos de um dançarino, o outro reúne sete histórias para lembrar que identidade nunca é construída sozinha. Inclusive, talvez, aí esteja um dos grandes motivos que justifiquem - mesmo após 13 anos de história - esse poder que o BTS tem de continuar emocionando tantas pessoas ao redor do mundo. E, sejamos sinceros, quem melhor para falar sobre amor do que quem primeiro aprendeu — e nos ensinou — a viver o Love Yourself?




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