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Queriam Aula, Ganharam ARIRANG

Elionai dos Santos
4 de jul.
3 min de leitura

Nascido do que foi imaginado antecipadamente, e das expectativas infladas de como a obra seria, um tipo específico de frustração foi notado nas impressões de uma parte do público que ansiava por ARIRANG. Não porque o álbum tinha falhas próprias, mas, desde que foi anunciado o conceito, os ouvintes esperavam uma exibição explícita da cultura tradicional coreana, algo didático, já que é assim que a maioria das pessoas reconhecem a cultura. 


Então estreou o aguardado retorno musical do BTS como um grupo. Não como pedagogia, visto que ARIRANG nunca teve a intenção de ser uma aula de história sobre a Coreia. Mas como presença, refletindo a identidade, as raízes e experiências vividas pelos sete membros como artistas e coreanos. No entanto, houve incompreensão de alguns ouvintes, que se perguntaram se a obra era coreana o suficiente? E se o BTS deixou de ser coreano e se americanizou.


O que deixa bem óbvio, que algumas expectativas – não prometidas – não foram supridas. Essas pessoas imaginavam um álbum com apenas músicas tradicionais coreanas? As letras deviam ser apenas em hangul? É difícil prever o que desejavam. Quanto ao BTS, eles não forçaram tradição e incorporaram a Coreia do Sul de forma natural em todo o projeto ARIRANG. E mesmo produzindo em inglês, uma língua mais acessível, continuarão sendo sul coreanos até morrer.


A leitura superficial começa a falhar, quando percebem que não é só um conceito estético neutro, ARIRANG é memória. Trata-se de um dos símbolos mais profundos da identidade coreana, um canto que atravessa gerações, deslocamentos e contextos históricos — inclusive momentos de resistência coletiva, como protestos e movimentos sociais. É um termo que representa algo vivo em constante transformação e isso se alinha perfeitamente à essência do BTS. 


Se conectarmos o amor, a saudade, a alegria, a esperança, a dor e a resiliência vividos pelos membros neste capítulo da vida pós serviço militar e seus esforços para se reunirem e voltarem para o ARMY, veremos que esse momento é ARIRANG. E trazer isso para a cultura pop globalizada, cujo qual estão inseridos, é afirmar sua identidade coreana, é transmitir o que lhe confere profundidade sem imposição e isso é a cara do BTS.


Como apontado em análises recentes da imprensa sul-coreana, a decisão de BTS de nomear um álbum e uma turnê como “ARIRANG” não deve ser tratada como escolha estética ou estratégia de marketing. Porque é sobre posicionamento, é quem eles são, culturalmente falando, e para onde estão projetando globalmente, essa cultura. O projeto traz a valorização explícita de elementos culturais coreanos como eixo central combinando com uma colaboração global.


Parte do público esperava algo explicativo e o álbum veio incorporando a cultura em vez de ensiná-la, o que causou um certo ruído inevitável. Esse hábito consolidado mundialmente de consumir cultura como vitrine contextualizada, foi quebrado e em vez de curiosidade, para alguns tornou-se frustração. A obra tem significado, mas a crítica achou desconfortável não ter mediação e argumentou o idioma como identidade e acessibilidade como diluição.


Mas o próprio projeto contradiz essa interpretação. ARIRANG foi concebido como uma obra que dialoga com o mundo sem abrir mão de sua origem — uma espécie de “nascido na Coreia, voltado para o mundo”, como já apontaram algumas críticas internacionais. É bem simples, traduzir o coreano para um língua global não é abandonar a cultura original e não se resume a influência externa, é permitir a possibilidade de escuta em maior escala.


Talvez o que incomoda seja o fato da cultura circular em vez de se perder, já que, no fundo, o desejo recorrente de autenticidade, geralmente vem acompanhado de uma condição silenciosa, onde ela permaneça distante, que continue sendo algo a ser observado e não necessariamente compreendido. Pois no momento em que se torna acessível, ela muda de lugar e passa a exigir envolvimento. ARIRANG é perfeito, mas, talvez, falhou em corresponder a essa fantasia.


A obra nunca foi sobre explicar cultura, nem sobre performar tradição para validação externa. Foi um reposicionamento da cultura coreana não como algo a ser traduzido, mas como algo capaz de conduzir a narrativa global, e isso além de ambicioso, inevitavelmente desloca expectativas. No fim, a crítica mais recorrente talvez seja também a mais reveladora: Queriam autenticidade, só não nesse formato compreensível.


Essas são apenas referências mostrando que algumas pessoas não entenderam ARIRANG e a influência desse projeto criado pelo BTS. Eles não querem impor a cultura coreana, eles querem mostrar, porque eles fazem parte da cultura, eles são coreanos e é impossível não levar com eles a Coreia do Sul.





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