Set Me Free sob o Prisma de Foucault: O Corpo em Cena e a Subjetividade em Disputa
- podarmys
- 12 de set. de 2025
- 3 min de leitura
Por: Sabrina Barbosa

“Decidi enlouquecer para não enlouquecer”
Michael Foucault, em História da Loucura, explica de forma muito profunda como a sociedade enxerga e define “loucura”, deixando de ser um estado clínico e passando a ser uma forte categoria social, capaz de excluir, controlar e segregar aqueles que não se enquadram na norma.
Embora a frase soe como um “paradoxo” ou até mesmo “concordância verbal”, Park Jimin trouxe em “Set Me Free PT. 2”, faixa que integra o álbum Face, lançado em março de 2023, uma abordagem muito perspicaz ao assumir o papel de quem se recusa a se render ao controle normativo. Tal postura pode ser associada a um ato de resistência estética e existencial.
No MV de “Set Me Free PT. 2”, Jimin expressa uma batalha pela sua emancipação subjetiva, travada tanto no plano interno quanto no externo. Essa tensão se reflete nos cenários, coreografias intensas, simbólicas e resistentes ao padrão que é estabelecido e seguido piamente por todos os dançarinos. Vários momentos, onde ele se distancia do corpo coletivo para expressar essa subjetividade por meio da dança, demonstram essa resistência.
No livro “Vigiar e Punir (1975)”, do filósofo e historiador Michael Foucault, o autor explica que o sujeito é moldado por meio das disciplinas, normas, regras e expectativas do meio. Portanto, a subjetividade não é a essência do eu internalizado, mas sim o produto final das relações que atuaram para a construção daquele indivíduo.
O MV de “Set Me Free Pt. 2” traz consigo um cenário fechado, escuro, sem abertura para contemplar outras possibilidades; para além disso os dançarinos performam uma dança homogênea, dura, simétrica e quase militar. Em contrapartida, Jimin se posiciona naquele meio como quem, metaforicamente, está inserido ali em meio à pressão para se igualar e se encaixar, cuja dança individual expressa uma luta para se extrair daquele corpo coletivo, mesmo quando cercado, buscando seguir um rumo diferente, subjetivo e único!
Quando o MV é colocado sobre a luz da interpretação psicológica, é possível compreender sua narrativa de autoconhecimento, individuação e expressão emocional. Embora FACE seja um álbum que traz temáticas como dor, solidão e repressão, ele também expressa a necessidade de transformação.
Ir contra a massa, desviar-se das normas e expectativas sociais é um processo que envolve dor, solidão e repressão, tal qual o álbum expressa de forma geral, No entanto, essas vivências emocionais colaboram para um processo de autoconhecimento e a urgência de transformação, esta que começa com a busca pela compreensão da sua própria identidade e subjetividade.
Em entrevista realizada para a Rolling Stone, Jimin relatou ter passado por um período de profunda reflexão sobre si mesmo e sobre como costumava negar suas emoções. Ao encarar o passado, ele demonstra entender a importância de as reconhecer como reais e complexas, respeitando-as e trabalhando em cima delas, ao invés de tentar as ignorar ou esconder para manter as aparências de “estar bem e feliz”.
Em um mundo que atua como molde que insiste em tentar encaixar as pessoas num padrão paradoxalmente inatingível, “Set Me Free Pt. 2” vem como uma crítica sobre as pressões sociais e também como um lembrete de que a verdadeira liberdade começa no momento em que o sujeito ousa romper com aquilo que lhe foi proposto, ou melhor: imposto.
As pessoas lutam todos os dias para manter uma aparência inabalável, uma vida perfeita e sem erros, perseguindo cegamente a perfeição inalcançável. Sempre haverá uma forma de “ser mais” e essa corrida sem fim se torna apenas um ciclo vicioso e tóxico, onde quem se submete a este vive em prol de algo que não passa de fingimento para si e para os outros.
Em “Set Me Free Pt. 2”, Jimin expressa que prefere se entregar à “loucura” perante os olhos daqueles que sustentam e lutam para se manter na norma, expondo a coragem de se assumir imperfeito, a enlouquecer na busca de uma perfeição que, pouco a pouco, mata a identidade e a subjetividade.
Respeitar-se, amar-se e valorizar as próprias imperfeições como parte de si é, talvez, o maior ato de resistência que as pessoas podem exercer em um mundo que se mostra obcecado por uma perfeição inalcançável.




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